Hoje eu percebo e digo cheia de remorso que nada fiz dessa minha existência até agora (e é claro que temos todo tempo do mundo em todo mundo de tempo) e questiono-me angustiada: por que é que eu deixei passar tanta coisa? Nada me impedia, eu fui inibida por mim mesma e agora já não há culpado pra nenhuma das vezes em que eu não fiz algo. Céus, eu podia ter feito tanta coisa. E, tá, não adianta chorar pelo leite derramado, pela caravana que já passou, pelo bonde perdido, mas quem disse que esse é um motivo plausível e palpável prum ser que só fez ser emocional a vida toda? A verdade é que eu nunca soube "pensar com a cabeça" como a minha avó vivia repetindo que devia ser feito, isso nunca me ocorreu e acho que eu nunca quis... Pensar com a cabeça pra mim era sinônimo de frigidez, faria de mim um ser humano intocável, inalcançável e eu gostava tanto de ser tocada com tão pouco, uma palavra, uma música, aquelas poesias de parede, notas de rodapé, essas coisas me enchem os olhos até hoje, será que é tão mau assim?
Não deve ser, mas nessas idas e vindas do meu sentimentalismo exacerbado, dessas crises completamente estúpidas de tudo o que eu sou, deixei que tantas pessoas passassem, os mundos passaram rente aos meus olhos e apesar de abertos, eu não consegui ver nada. Ou até via, mas não enxergava que eu estava ali, parada, perdendo a vida enquanto a vida perdia tempo comigo, um tempo que podia ter dado tantas chances pra outras pessoas, um tempo que... sabe? Um tempo. E o tempo é quase que tão importante que as palavras, que são esse mundo inteiro, essa imensidão de tudo o que a gente conhece e do que a gente nem sabe que existe. Palavras podem ser flechas, podem vir a ser pessoas, podem ser livros, podem ser o que quiserem, porque as palavras tem um poder que eu queria ter... e nem usando as benditas palavras eu consigo expressar o que realmente quero dizer.
Ou vai ver, eu nem tenho nada pra dizer, eu só queria... eu nem sei o que eu quero. Astrólogos culpam meu signo no zodíaco por tanta indecisão, eu gosto de pensar que é só dificuldade de conseguir enxergar o que é realmente preciso no tempo certo. De novo o tempo me roubando até as escolhas. O problema é que eu não tenho tempo pra pensar, nem pra escolher, nesse meio de gastar tempo com tanta coisa fútil eu ainda fico sem tempo pra viver e sem viver fico sem escolha, sem pensar, sem andar, sem tempo, sem palavras... "e palavras são o mundo todo".
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