sábado, 10 de novembro de 2012

Infame Amor


          Caso permita-se, contarei tudo o que tenho aqui.
Tudo o que passei nesses dias que eram nossos e que hoje são meus e só.
Eu acordo todos os dias com aquele bendito raio de sol entrando pela mesma fresta da janela, aquela que a cortina não cobre. (Cortinas!) 

          O café da manhã nunca foi minha refeição predileta. Agora, além disso, tem sido a mais tortuosa. Você quem me discursou sobre sua importância, está ausente, de novo. A mesa sente sua falta.
A cadeira, que você fazia questão de acordar até mais cedo pra ocupar, também sente. Muita.
Mas elas continuam aqui, ainda que amarguradas e sedentas de carinho, continuam, ficam. Já você…foi? Por que diabos não se senta nessa maldita cadeira e come nessa mesa infame?
          Está vendo? Estou usando as palavras que você não gosta, de novo. Sua ausência é degradante, fere tudo o que eu cultivei de mais precioso em mim. Não pode continuar desse jeito. Não pode. Ouça, as músicas que você me dedicou saíram do tom, elas não têm mais melodia, nem letra.
Não fazem o menor sentido se você não está aqui pra olhar daquele jeito, sorrir daquele jeito…Ah! Vê? Tudo acaba me desviando por esse caminho de ardência e saudade, e saudade, e…
[Nada saudável]
          Recebi essa manhã uma carta sua. Pra aliviar minha dor e aumentar a inquietação do meu peito que grita, que dilacera só de ter em mãos algo que já passou pelas tuas. Ah… tuas mãos! A carta! Bem… me disse que você volta, que está com saudade da cadeira e da mesa. Meus olhos se regaram, procurando por algo mais na sua lista de saudades, em vão. Não havia mais nada. Um ponto final que mais parecia a ponta de uma flecha ferindo meu orgulho. Maldição! Para o inferno sua cadeira, sua mesa, seu amor, sua vida, vá por inteiro!
Caído no chão, uma folha do seu bloco de notas.
Um bilhete mal rabiscado:

"Não me tenhas ódio, amor
não chores por mim.
já estou à caminho
do que eu mais senti
[falta]
De ti, mulher. Sem a qual
a cadeira e a mesa não me servem.
De ti, sobre a mesa, apoiando-se na cadeira.
Mesa infame!
Lembro. E quero. Por isso volto, agora.
Te pertenço, com amor."

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