Não é que eu tenha o que falar, ou que meus pensamentos sejam lógicos ou que o que eu cogitar a possibilidade de fazer estará sendo feito com lucidez. Não é isso. Mas é que a necessidade de dizer qualquer coisa, ainda que seja nada, é tanta que chega um momento que… não dá pra segurar muito mais.
Cheguei aí. No ponto onde as coisas não funcionam mais do mesmo jeito, nada parece engrenar, ninguém parece ouvir e nada no mundo coopera pra o que a gente quer ver acontecer. Não acontece. E aí a gente se desespera, arranca os cabelos, pula fora, se joga no chão, faz pirraça, se revolta com o mundo, a gente cansa… e quando a gente cansa, não tem mais volta, sem chance. E é sem chance pra mim, pra você, pro Roberto da padaria, pro Carlos do açougue, pra mocinha bonita da boutique, pra senhora do banco da praça, acaba pra todo mundo: linha de chegada, sem ganhadores.
Disseram-me uma vez que segredo é não deixar as coisas alcançarem dimensões tão grandes quando negativas e é aí que a gente peca, eu peco. Sempre tentando esconder entre um sorriso e outro as coisas que já não vão mais tão bem, a gente se engana, se finge, se veste de “não-se-sabe-o-que” e a vida corre diante dos nossos olhos de tal forma que só damos conta quando já não há mais retorno. Lá no fim, depois da luz do túnel. Que luz que nada! … depois daí só existe escuro, o que não se pode ver, o desconhecido e eu tenho tanto medo de desconhecer… principalmente de não reconhecer você, lá, de não conseguir discernir a sua figura nem que te toque as mãos, nem que ouça sua voz, nem que sinta a sua presença.
Isso me faz chorar. E de pensar que eu nem deixaria você enxugar o meu pranto por não te conhecer… me magoa tanto que eu quase canso. Mas não ainda, eu ainda te reconheço.