quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Eu te reconheço



Não é que eu tenha o que falar, ou que meus pensamentos sejam lógicos ou que o que eu cogitar a possibilidade de fazer estará sendo feito com lucidez. Não é isso. Mas é que a necessidade de dizer qualquer coisa, ainda que seja nada, é tanta que chega um momento que… não dá pra segurar muito mais. 
Cheguei aí. No ponto onde as coisas não funcionam mais do mesmo jeito, nada parece engrenar, ninguém parece ouvir e nada no mundo coopera pra o que a gente quer ver acontecer. Não acontece. E aí a gente se desespera, arranca os cabelos, pula fora, se joga no chão, faz pirraça, se revolta com o mundo, a gente cansa… e quando a gente cansa, não tem mais volta, sem chance. E é sem chance pra mim, pra você, pro Roberto da padaria, pro Carlos do açougue, pra mocinha bonita da boutique, pra senhora do banco da praça, acaba pra todo mundo: linha de chegada, sem ganhadores.
Disseram-me uma vez que segredo é não deixar as coisas alcançarem dimensões tão grandes quando negativas e é aí que a gente peca, eu peco. Sempre tentando esconder entre um sorriso e outro as coisas que já não vão mais tão bem, a gente se engana, se finge, se veste de “não-se-sabe-o-que” e a vida corre diante dos nossos olhos de tal forma que só damos conta quando já não há mais retorno. Lá no fim, depois da luz do túnel. Que luz que nada! … depois daí só existe escuro, o que não se pode ver, o desconhecido e eu tenho tanto medo de desconhecer… principalmente de não reconhecer você, lá, de não conseguir discernir a sua figura nem que te toque as mãos, nem que ouça sua voz, nem que sinta a sua presença.
Isso me faz chorar. E de pensar que eu nem deixaria você enxugar o meu pranto por não te conhecer… me magoa tanto que eu quase canso. Mas não ainda, eu ainda te reconheço.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A-nexo sem nexo.

         Já faz um tempo desde que tudo parecia estar se encaminhando até eu perceber que nada mudou de lugar, continua tudo do mesmo jeito, como sempre. E constatar isso aperta o âmago e faz com que eu apele para os deuses deste universo pra que por piedade ou caridade façam-me o agrado de mandar aquela luz, o insight que me falta pra prosseguir, não pode ser pedir demais.
         Hoje eu percebo e digo cheia de remorso que nada fiz dessa minha existência até agora (e é claro que temos todo tempo do mundo em todo mundo de tempo) e questiono-me angustiada: por que é que eu deixei passar tanta coisa? Nada me impedia, eu fui inibida por mim mesma e agora já não há culpado pra nenhuma das vezes em que eu não fiz algo. Céus, eu podia ter feito tanta coisa. E, tá, não adianta chorar pelo leite derramado, pela caravana que já passou, pelo bonde perdido, mas quem disse que esse é um motivo plausível e palpável prum ser que só fez ser emocional a vida toda? A verdade é que eu nunca soube "pensar com a cabeça" como a minha avó vivia repetindo que devia ser feito, isso nunca me ocorreu e acho que eu nunca quis... Pensar com a cabeça pra mim era sinônimo de frigidez, faria de mim um ser humano intocável, inalcançável e eu gostava tanto de ser tocada com tão pouco, uma palavra, uma música, aquelas poesias de parede, notas de rodapé, essas coisas me enchem os olhos até hoje, será que é tão mau assim?
         Não deve ser, mas nessas idas e vindas do meu sentimentalismo exacerbado, dessas crises completamente estúpidas de tudo o que eu sou, deixei que tantas pessoas passassem, os mundos passaram rente aos meus olhos e apesar de abertos, eu não consegui ver nada. Ou até via, mas não enxergava que eu estava ali, parada, perdendo a vida enquanto a vida perdia tempo comigo, um tempo que podia ter dado tantas chances pra outras pessoas, um tempo que... sabe? Um tempo. E o tempo é quase que tão importante que as palavras, que são esse mundo inteiro, essa imensidão de tudo o que a gente conhece e do que a gente nem sabe que existe. Palavras podem ser flechas, podem vir a ser pessoas, podem ser livros, podem ser o que quiserem, porque as palavras tem um poder que eu queria ter... e nem usando as benditas palavras eu consigo expressar o que realmente quero dizer. 
         Ou vai ver, eu nem tenho nada pra dizer, eu só queria... eu nem sei o que eu quero. Astrólogos culpam meu signo no zodíaco por tanta indecisão, eu gosto de pensar que é só dificuldade de conseguir enxergar o que é realmente preciso no tempo certo. De novo o tempo me roubando até as escolhas. O problema é que eu não tenho tempo pra pensar, nem pra escolher, nesse meio de gastar tempo com tanta coisa fútil eu ainda fico sem tempo pra viver e sem viver fico sem escolha, sem pensar, sem andar, sem tempo, sem palavras... "e palavras são o mundo todo".